Para quem tem fibromialgia, há momentos em que até mesmo respirar causa sofrimento

Quando a dor se torna uma companheira inseparável, cada dia é visto como um grande desafio. As tarefas comuns da vida tornam-se um tormento. Andar dói, sentar dói, deitar também. Às vezes, até mesmo respirar é uma dor. Em momentos de crise, um simples abraço ou toque, por mais delicado que seja, é uma tortura. Quem vive com fibromialgia conhece bem a anatomia humana e tem uma intimidade indesejada com sensações tão dolorosas que nem são imagináveis ​​por quem não é refém do problema.

O sofrimento do paciente com fibromialgia, porém, vai além do que é sentido no corpo. A doença era vista como um distúrbio psíquico e confundida com depressão até muito recentemente. Para os olhos dos outros, a dor era fruto da imaginação ou do exagero. Hoje, a causa da fibromialgia ainda é um mistério, mas estudos mostram que a doença é realmente física e atinge cerca de 4% da população brasileira. Em idosos com mais de 65 anos, a prevalência é de 7,5%. As mulheres são as mais atingidas.

A fibromialgia é caracterizada por dores musculares e esqueléticas crônicas e difusas, fadiga e sono prejudicado. No entanto, geralmente traz consigo uma série de distúrbios, como rigidez muscular, enxaqueca, confusão mental, deficiência de memória, palpitações, tonturas, depressão e muitos outros. O diagnóstico nem sempre é imediato. É necessário descartar outras patologias que também causam dores difusas. Segundo o reumatologista Rodrigo Aires Correa Lima, eventos físicos e emocionais estressantes ou traumáticos são capazes de desencadear a doença, mas ainda não se sabe se pode surpreender alguém ou se ocorre apenas em pessoas predispostas ao mal. Continua após a publicidade

Alerta
O médico lembra que, em homens e mulheres saudáveis, a dor é um alerta, um sinal de que algo está errado no corpo. Para quem tem fibromialgia, no entanto, a dor por si só é a doença. “Os sintomas nem sempre são compreendidos por médicos que pouco conhecem sobre a síndrome. A fibromialgia não causa deformidades físicas e os pacientes parecem saudáveis. Eu trato casos de fibromialgia que sofreram por quase uma década antes de receber o tratamento adequado. Para confirmar o diagnóstico, contamos com a história do paciente e com a dor, que deve ser generalizada, atingir pelo menos 11 pontos específicos do corpo e durar mais de três meses sem motivo aparente ”, explica o especialista.

A fonoaudióloga Maria Cláudia Silva de Camargo, 49, viveu três anos com o diagnóstico errado e teve sua vida completamente transformada devido à fibromialgia. A doença trouxe tantas limitações que ela teve que parar de trabalhar e aprender a respeitar novos limites. “Em mim, o fibro apareceu como uma sensação de queimação nas costas. Era como se eu tivesse uma queimadura de terceiro grau. Eu não conseguia sentar ou deitar. A dor é tão terrível que me imaginei sofrendo de algo muito sério, letal ”, diz. “Durante três anos fui medicado com medicamentos que aliviam os sintomas por apenas algumas horas. Posso dizer que nesse período a vida ficou em branco, me tornei uma pessoa introspectiva, pois nem sempre a família e os amigos entendem a dimensão da dor.

Desconfiança
Para dormir, Maria Cláudia toma calmantes. Depressão, dor e outras manifestações são controladas com medicamentos. Segundo ela, a sociedade desconhece a doença e o grande desafio do fibromialgia é conviver com o turbilhão das crises e tudo o que elas envolvem, além da desconfiança das pessoas. “Eu sigo estritamente as orientações médicas e faço exercícios aeróbicos e terapia para aprender a conviver com o mal, mas não posso fazer planos, pois as dores surpreendem. Não me sinto seguro trabalhando, minha memória e concentração também foram afetadas. Minha vida teve que ser adaptada a essa nova condição. Atividades simples como ir ao mercado sozinha ou sentar no chão para brincar com meus netos são coisas do passado. Não consigo nem fazer planos ”, lamenta.

A fisiatra e presidente regional da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, Ana Paola Gadelha, explica que os pacientes afetados pela fibromialgia têm uma percepção extrema dos estímulos dolorosos e que a doença é realmente incapacitante. “A pesquisa mostra que, embora sejam hipersensíveis à dor, os pacientes com fibromialgia também são incapazes de ativar substâncias que aliviariam essa sensação. Por isso, estímulos suportáveis ​​e contornáveis ​​para quem não sofre da síndrome são extremamente dolorosos para quem tem a doença ”, observa.

O médico ressalta, porém, que é importante entender e desmistificar a doença. “A fibromialgia não tem cura, mas a dor pode ser controlada com medicamentos e tratamentos não farmacológicos. Embora seja limitante, não é maligno. Remédios adequados, controle de estressores, exercícios e terapias complementares podem trazer qualidade de vida ”, garante o fisiatra.

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